O conceito de Médio Oriente

De Baripedia

Basado en un curso de Yilmaz Özcan.[1][2]

O Médio Oriente, uma região multifacetada, estende-se do Egipto ao Irão, englobando países como Israel, Jordânia, Líbano, Síria, Iraque, Arábia Saudita e outros. Geograficamente, esta região funciona como uma ponte entre a Europa, a Ásia e a África, com uma posição estratégica que moldou a sua história e política. É o berço de civilizações antigas e de três grandes religiões monoteístas: o judaísmo, o cristianismo e o islamismo, que influenciaram profundamente a sua cultura e tradições. Historicamente, o Médio Oriente foi o centro de poderosos impérios, como o Império Otomano, que reinou até à sua queda após a Primeira Guerra Mundial, e o Império Persa, conhecido pela sua riqueza cultural e científica. A região foi o berço de figuras influentes como Saladino, no século XII, figura emblemática da resistência contra os cruzados, e mais recentemente Gamal Abdel Nasser, líder do Egipto e figura central do nacionalismo árabe no século XX.

O Médio Oriente tem sido também uma importante zona de conflito geopolítico, influenciado pela colonização europeia e pelos interesses das potências mundiais nos seus recursos naturais, sobretudo o petróleo. Os acordos Sykes-Picot de 1916, que redefiniram as fronteiras da região após a queda do Império Otomano, são um exemplo marcante da influência ocidental na configuração política do Médio Oriente. Este período marcou também o início da questão palestiniana, que continua a ser um importante pomo de discórdia. Em termos económicos, a descoberta e a exploração do petróleo transformaram radicalmente alguns países do Médio Oriente, como a Arábia Saudita, o Qatar e os Emirados Árabes Unidos, em potências económicas regionais. No entanto, esta riqueza não está distribuída de forma homogénea e tem sido uma fonte de tensões internas e externas. A região assistiu a grandes movimentos sociais, como a primavera Árabe em 2011, que desencadeou uma série de revoltas populares exigindo reformas democráticas. Estes acontecimentos puseram em evidência os desafios enfrentados por muitas sociedades do Médio Oriente, como a corrupção, o desemprego e a repressão política. Em termos teóricos, as análises do Médio Oriente na ciência política e na história incorporam frequentemente conceitos como o colonialismo, o nacionalismo, o pan-arabismo e, mais recentemente, estudos sobre o terrorismo e o fundamentalismo religioso. Estes conceitos ajudam a compreender a complexa dinâmica da região.

Atualmente, o Médio Oriente continua a ser uma região em mutação, navegando entre a tradição e a modernidade, e continua a desempenhar um papel central na cena mundial, influenciando a política, a economia e a cultura muito para além das suas fronteiras.

O conceito de Médio Oriente[modifier | modifier le wikicode]

A noção de "Médio Oriente" está intimamente ligada a uma perspetiva europeia e reflecte a forma como as potências ocidentais têm historicamente encarado e classificado esta região. O termo foi popularizado pela primeira vez em 1902 por Alfred Thayer Mahan, um influente estratega naval americano, no contexto de um artigo que discutia questões estratégicas relacionadas com a Índia e o Oceano Índico.

Mahan utilizou o termo para se referir a uma área geográfica de importância estratégica para os interesses navais e comerciais, particularmente a rota para a Índia, uma colónia britânica crucial na altura. A região do "Médio Oriente" de Mahan incluía territórios desde o Império Otomano, a oeste, até à fronteira ocidental da Índia, englobando o Golfo Pérsico e outras áreas fundamentais para o controlo marítimo e comercial. Esta concetualização do Médio Oriente é emblemática da abordagem eurocêntrica que prevaleceu na análise geopolítica no início do século XX. Reflecte a visão das potências coloniais, que viam a região principalmente através do prisma dos seus próprios interesses estratégicos e económicos. Esta perspetiva moldou não só a forma como o Médio Oriente era entendido e representado no discurso ocidental, mas também a forma como as fronteiras e as estruturas políticas da região foram estabelecidas, sobretudo após a queda do Império Otomano e o fim da Primeira Guerra Mundial.

O termo "Médio Oriente" foi utilizado muito antes de Alfred Thayer Mahan, embora a sua popularização lhe seja frequentemente atribuída. Sir Thomas Edward Gordon, um oficial e diplomata britânico, terá utilizado o termo "Médio Oriente" já em 1842. No entanto, esta utilização precoce não teve o mesmo impacto ou ressonância que a de Mahan nos círculos geopolíticos e académicos. A utilização do termo "Médio Oriente" por Gordon pode ser vista como uma indicação precoce da forma como as potências europeias começavam a concetualizar e a definir a região no contexto dos seus interesses imperiais e estratégicos. No entanto, foi o artigo de Mahan de 1902 que ajudou efetivamente a ancorar o termo na linguagem geopolítica moderna. Ao centrar-se na importância da região para o controlo das rotas marítimas e o acesso aos recursos, Mahan conferiu ao termo uma dimensão estratégica que se coadunava com os interesses e preocupações das potências ocidentais da época. Esta diferença no impacto e na difusão das duas utilizações ilustra a forma como certas ideias ou conceitos ganham influência em função do contexto histórico e geopolítico em que são empregues. Enquanto a utilização de Gordon permaneceu relativamente obscura, a de Mahan surgiu numa altura em que os desafios estratégicos do Médio Oriente começavam a ser cada vez mais reconhecidos pelas potências ocidentais, o que contribuiu para a popularização e perpetuação do termo.

Valentine Chirol, um influente jornalista e comentador de política externa, acrescenta uma perspetiva interessante à história do conceito de "Médio Oriente". Chirol, que trabalhava para o The Times de Londres (e não para o The New York Times), desempenhou um papel fundamental na popularização e divulgação do termo no início do século XX. Valentine Chirol, como correspondente e, mais tarde, como diretor de assuntos externos do The Times, escreveu muitos artigos e livros influentes sobre política internacional, e os seus escritos abordavam frequentemente a região a que hoje chamamos Médio Oriente. As suas análises centraram-se especialmente na dinâmica geopolítica, incluindo o chamado "Grande Jogo" - a rivalidade estratégica entre os impérios britânico e russo pelo controlo da Ásia Central.

Embora Chirol não tenha definido rigorosamente as fronteiras geográficas do Médio Oriente, os seus escritos ajudaram a moldar o entendimento ocidental da região como um espaço estratégico crucial, especialmente em relação aos interesses britânicos e russos na Ásia Central. Este enfoque no "Grande Jogo" realçou a importância da região não só pelo seu potencial económico (em especial os seus recursos petrolíferos), mas também pelo seu papel no equilíbrio geopolítico de poder. De facto, a contribuição de Chirol para o debate sobre o Médio Oriente insere-se num contexto mais vasto de rivalidades imperiais e de redefinição das esferas de influência que moldaram a política internacional no final do século XIX e início do século XX. Os seus escritos ajudaram, assim, a estabelecer o Médio Oriente como um conceito-chave no discurso geopolítico ocidental, embora a definição exacta e as fronteiras da região tenham continuado a evoluir ao longo do tempo.

A concetualização do "Médio Oriente" como uma região distinta[modifier | modifier le wikicode]

A concetualização do "Médio Oriente" como uma região distinta está intimamente ligada a uma perspetiva eurocêntrica que surgiu no contexto dos interesses coloniais e imperiais no século XIX e no início do século XX. Nesta visão do mundo, as regiões eram classificadas de acordo com a sua proximidade relativa da Europa, dando origem aos termos "Extremo Oriente", "Próximo Oriente" e "Médio Oriente".

O Extremo Oriente englobava países como a China, o Japão e a Coreia, considerados os mais afastados da Europa. Esta região adquiriu uma importância significativa durante o período do imperialismo ocidental, marcado por acontecimentos como a Guerra do Ópio (1839-1842) e a abertura forçada do Japão ao comércio ocidental pelo Comodoro Perry em 1854. Quanto ao "Próximo Oriente", referia-se inicialmente aos territórios do Império Otomano adjacentes à Europa, como a Turquia, a Grécia e, por vezes, o Egipto. As reformas do Tanzimat no Império Otomano, no século XIX, e a questão do Oriente, um tema diplomático e cultural importante nas relações entre as potências europeias e o Império Otomano, ilustram a importância desta região na política externa europeia da época. O "Médio Oriente", situado entre estas duas regiões, era definido de forma mais vaga. Alfred Thayer Mahan, ao popularizar o termo no seu artigo de 1902, sublinhou a importância estratégica da região para o controlo das rotas marítimas para a Ásia e dos recursos petrolíferos. Esta perspetiva foi reforçada pela rivalidade anglo-russa na região, conhecida como o "Grande Jogo", em que as duas potências competiam pela influência na Ásia Central.

A utilização destes termos reflectia e reforçava a visão eurocêntrica do mundo, em que as regiões eram definidas e compreendidas principalmente em termos da sua relação com os interesses europeus. Esta perspetiva tem sido criticada nos discursos pós-coloniais e nos estudos regionais modernos pela sua falta de reconhecimento da dinâmica interna e da autonomia das regiões em causa. Na ciência política e na história, a análise destes termos realça as complexidades e as consequências da colonização e do imperialismo, sublinhando simultaneamente a necessidade de abordagens mais matizadas e contextualizadas para compreender as regiões do mundo.

A Primeira Guerra Mundial desempenhou um papel crucial na redefinição dos termos geopolíticos e no desaparecimento gradual do termo "Próximo Oriente", bem como na popularização e consolidação do conceito de "Médio Oriente". Durante a Primeira Guerra Mundial, o Império Otomano, que ocupava uma grande parte do então chamado Próximo Oriente, aliou-se às Potências Centrais. Esta aliança revelou-se desastrosa para o Império, que sofreu pesadas perdas territoriais no final da guerra. Com o Tratado de Sèvres, em 1920, seguido do Tratado de Lausana, em 1923, o Império Otomano foi desmantelado, perdendo os seus territórios na Europa e no Médio Oriente.

Estes acontecimentos conduziram à "balcanização" da região, um termo que se refere à fragmentação em vários Estados mais pequenos, frequentemente utilizado para descrever a situação nos Balcãs após as Guerras dos Balcãs, mas também aplicável aqui. Este período assistiu ao aparecimento de novos Estados-nação, como a Turquia moderna de Mustafa Kemal Atatürk, e à redefinição das fronteiras no Médio Oriente. Ao mesmo tempo, foram estabelecidos mandatos da Sociedade das Nações em várias regiões do antigo Império Otomano. As potências europeias, principalmente a França e a Grã-Bretanha, receberam o mandato de governar os antigos territórios otomanos, como a Síria, o Líbano, o Iraque e a Palestina. Este mandato influenciou profundamente a configuração política e social da região, deixando um legado que continua a moldar o Médio Oriente moderno.

Com o desaparecimento do Império Otomano e a reconfiguração da região, o termo "Próximo Oriente" perdeu a sua relevância, uma vez que a distinção entre "Próximo Oriente" e "Médio Oriente" se tornou menos clara. A partir de então, o termo "Médio Oriente" passou a ser utilizado de forma mais genérica para designar a região que se estende do Egipto ao Irão, englobando os territórios árabes, a Turquia e, por vezes, até o Afeganistão e o Paquistão. Este período foi, portanto, decisivo para a redefinição geopolítica da região, moldando a forma como esta é percepcionada e categorizada no discurso internacional até aos dias de hoje. Estas mudanças não só reflectem a dinâmica de poder da época, como também sublinham a importância dos acontecimentos históricos na formação de conceitos geográficos e políticos.

A Primeira Guerra Mundial desempenhou um papel decisivo no alargamento e na redefinição da noção de Médio Oriente. Antes da guerra, a compreensão do Médio Oriente centrava-se frequentemente na Índia e nas rotas marítimas vitais para o comércio e a influência britânicos. No entanto, as consequências da guerra levaram a uma expansão significativa desta noção, particularmente para ocidente. Uma das principais transformações foi a inclusão dos territórios árabes do antigo Império Otomano na definição do Médio Oriente. Com a queda do Império Otomano e o estabelecimento de mandatos da Liga das Nações, regiões como a Síria, o Iraque, o Líbano e a Palestina tornaram-se partes centrais do que é hoje conhecido como Médio Oriente. A redefinição das fronteiras e a criação de novos Estados nestes territórios mandatados ajudaram a moldar um novo entendimento geopolítico da região.

Além disso, a utilização e o reconhecimento oficiais do termo "Médio Oriente" pelas potências ocidentais e pelas instituições internacionais reforçaram a sua adoção e aceitação na linguagem política e diplomática. Esta mudança reflectiu não só as realidades geopolíticas do pós-guerra, mas também os interesses estratégicos e económicos, nomeadamente no que diz respeito às reservas de petróleo da região, que passaram a desempenhar um papel crucial na política mundial. A redefinição do Médio Oriente após a Primeira Guerra Mundial teve, portanto, profundas implicações, tanto para os povos da região como para a política internacional. Marcou o início de uma nova era em que o Médio Oriente se tornou um ponto central dos interesses estratégicos globais, uma situação que continua a moldar as relações internacionais e a dinâmica regional no mundo contemporâneo.

O período que se seguiu à Primeira Guerra Mundial viu a Grã-Bretanha desempenhar um papel de liderança na reconfiguração política e territorial do Médio Oriente. Os britânicos, reconhecendo a crescente importância estratégica e económica da região, organizaram uma série de reuniões, intercâmbios e conferências e criaram comités e departamentos específicos para gerir os seus interesses e territórios na região.

Um dos primeiros exemplos foi a criação do Comité do Médio Oriente em 1917. O objetivo deste comité era coordenar a política britânica na região, numa altura de convulsão geopolítica devido à guerra. A criação deste comité reflectia o reconhecimento crescente, por parte dos britânicos, da importância do Médio Oriente nas suas estratégias globais. Em 1921, Winston Churchill, então Secretário de Estado das Colónias, desempenhou um papel fundamental na criação do Departamento do Médio Oriente. Este departamento era responsável pela gestão dos territórios controlados pelos britânicos no Médio Oriente, incluindo os mandatos da Liga das Nações, como a Palestina e a Mesopotâmia (atual Iraque). A criação deste departamento reflectia a necessidade de uma abordagem centralizada e coerente para administrar e explorar os recursos e as posições estratégicas destes territórios.

No mesmo ano, foi organizada a Conferência do Médio Oriente, um acontecimento crucial para determinar o futuro político dos territórios conquistados pela França e pela Grã-Bretanha na sequência do desmembramento do Império Otomano. A conferência abordou questões como as fronteiras, a administração e as políticas nos mandatos recém-criados. Figuras-chave como Churchill e T.E. Lawrence (mais conhecido como Lawrence da Arábia) participaram nestas discussões, que viriam a moldar o panorama político do Médio Oriente nas décadas seguintes. Estas iniciativas britânicas na região tiveram repercussões duradouras, não só em termos de configuração geopolítica, mas também em termos das relações entre o Oriente e o Ocidente. Lançaram também as bases para os muitos desafios políticos e sociais que a região enfrenta atualmente, incluindo as questões das fronteiras artificiais, da identidade nacional e dos conflitos entre Estados.

Terminologia géopolítica : Médio Oriente, Próximo Oriente e Grande Médio Oriente[modifier | modifier le wikicode]

O fim da Primeira Guerra Mundial marcou um ponto de viragem decisivo para o Médio Oriente, caracterizado pelo estabelecimento de mandatos pela Sociedade das Nações sobre os territórios do antigo Império Otomano. Estes mandatos, confiados principalmente à Grã-Bretanha e à França, redefiniram a paisagem política da região, lançando as bases de muitas questões contemporâneas.

A Grã-Bretanha, com a sua experiência imperial na Índia, desempenhou um papel preponderante na nova configuração do Médio Oriente. Entre os mandatos concedidos, o da Mesopotâmia, atual Iraque, foi particularmente significativo. Rico em petróleo, este território era crucial para os interesses económicos e estratégicos britânicos. A administração britânica no Iraque foi marcada por tentativas de fusão de várias entidades étnicas e religiosas num único Estado, um empreendimento complexo que lançou as sementes de futuras tensões. O Mandato Britânico na Palestina também teve implicações profundas. Incorporando a Declaração Balfour de 1917, que prometia a criação de um "lar nacional para o povo judeu", o Mandato lançou as bases do conflito israelo-árabe, que continua a moldar a geopolítica regional. A gestão britânica do Mandato foi uma tarefa delicada, que conciliava as aspirações sionistas com as exigências das populações árabes autóctones. A França, por seu lado, recebeu os mandatos sobre a Síria e o Líbano, onde estabeleceu administrações que influenciaram profundamente o desenvolvimento cultural e político destes países. A política francesa nestas regiões favoreceu frequentemente certas comunidades, como os cristãos maronitas no Líbano, contribuindo para moldar a paisagem política fragmentada que conhecemos atualmente.

Estes mandatos, embora inicialmente concebidos para preparar os territórios para a autonomia e a independência, funcionaram muitas vezes mais como administrações coloniais. As fronteiras traçadas pelas potências mandatárias nem sempre tiveram em conta as realidades étnicas, religiosas e culturais, o que levou à criação de Estados com identidades nacionais complexas e por vezes contraditórias. As repercussões destes mandatos ainda hoje se fazem sentir. As fronteiras artificiais e os Estados-nação criados durante este período foram muitas vezes o terreno fértil para conflitos internos e tensões entre Estados. Estes acontecimentos históricos não só remodelaram o Médio Oriente, como também influenciaram as teorias da ciência política e da história, salientando as consequências a longo prazo da colonização e do imperialismo, bem como os desafios da construção de nações em contextos multiétnicos e multiconfessionais.

A Segunda Guerra Mundial desempenhou um papel crucial na consolidação da utilização do termo "Médio Oriente" e na obsolescência do termo "Próximo Oriente". Este período de conflito mundial foi marcado por combates em muitas áreas, incluindo os Balcãs e o Norte de África, que foram gradualmente incluídos na definição mais ampla de Médio Oriente.

Durante a Segunda Guerra Mundial, o teatro de operações do Médio Oriente não se limitou aos países tradicionalmente associados à região, como o Egipto, a Síria e o Iraque. Englobou também áreas de conflito no Norte de África, nomeadamente a campanha do Norte de África, que assistiu a grandes confrontos entre as forças do Eixo, principalmente italianas e alemãs, e os Aliados, constituídos por tropas britânicas, francesas e, mais tarde, americanas. Figuras como o general britânico Bernard Montgomery e o marechal de campo alemão Erwin Rommel tornaram-se famosas pelo seu papel nestas batalhas. A utilização crescente do termo "Médio Oriente" para designar estes vários teatros de operações reflectiu uma compreensão mais ampla e flexível da região. Este alargamento geográfico foi também influenciado pelas necessidades estratégicas e logísticas das potências beligerantes, para as quais o controlo das rotas marítimas e dos recursos, em especial o petróleo, era crucial.

Assim, o termo "Próximo Oriente", que tradicionalmente designava as partes do Império Otomano mais próximas da Europa, caiu gradualmente em desuso. Após a dissolução do Império Otomano e a redefinição das fronteiras e das entidades políticas da região, a distinção entre "Próximo Oriente" e "Médio Oriente" tornou-se cada vez mais irrelevante. Assim, a Segunda Guerra Mundial não só foi um catalisador de mudanças geopolíticas e territoriais, como também influenciou a terminologia e a concetualização das regiões do mundo. O desaparecimento gradual da expressão "Próximo Oriente" e a predominância do termo "Médio Oriente" no discurso político e académico são emblemáticos destas mudanças.

O crescente envolvimento dos Estados Unidos no Médio Oriente durante e após a Segunda Guerra Mundial reforçou e solidificou o conceito de "Médio Oriente" no discurso internacional. Um marco significativo deste interesse crescente foi a criação do Instituto do Médio Oriente em Washington, D.C., que desempenhou um papel crucial na promoção do estudo e da compreensão da região nos Estados Unidos. Fundado em 1946, o Instituto do Médio Oriente foi criado num contexto de crescente interesse estratégico e económico dos Estados Unidos pelo Médio Oriente. Este período viu a América emergir como uma superpotência global, procurando alargar a sua influência em regiões estrategicamente importantes, nomeadamente devido à presença de vastas reservas de petróleo. O Médio Oriente, com os seus recursos energéticos e a sua posição geopolítica chave, tornou-se um foco central da política externa americana.

O papel do Middle East Institute tem sido o de fornecer análises, informações e aconselhamento sobre a região, ajudando a moldar a política externa dos EUA, bem como a compreensão académica e pública do Médio Oriente. Ao reunir peritos, diplomatas, académicos e profissionais, o Instituto tem contribuído para uma melhor apreciação das complexidades políticas, culturais, económicas e sociais da região. O crescente envolvimento dos EUA no Médio Oriente após a Segunda Guerra Mundial foi também marcado por acontecimentos importantes como a Doutrina Truman em 1947, que visava conter a expansão soviética e implicava um maior apoio aos países da região, e a criação do Estado de Israel em 1948, um acontecimento que afectou profundamente a dinâmica regional. O surgimento do Middle East Institute e o crescente envolvimento dos Estados Unidos na região não só reforçaram o conceito de Médio Oriente no discurso geopolítico, como assinalaram uma era de mudança significativa na política internacional, em que o Médio Oriente passou a ser um foco de interesse e intervenção norte-americana.

O período da Guerra Fria assistiu à emergência do conceito de "Grande Médio Oriente", uma extensão geográfica do termo tradicional "Médio Oriente". Esta redefinição foi influenciada pelas estratégias e interesses geopolíticos das superpotências da época, os Estados Unidos e a União Soviética, no contexto da sua rivalidade global. O "Grande Médio Oriente" engloba uma região muito mais vasta do que a tradicionalmente designada por "Médio Oriente". Estende-se desde o Sara Ocidental, no Norte de África, até à Índia, no Sul da Ásia, incluindo países da África Subsariana, como a Etiópia. Este alargamento reflecte uma compreensão mais ampla das questões estratégicas e das zonas de influência que ultrapassam as fronteiras tradicionais do Médio Oriente. Durante a Guerra Fria, esta região mais alargada foi um campo de batalha fundamental na luta pela influência entre os EUA e a URSS. As superpotências envolveram-se numa série de conflitos por procuração e apoiaram vários regimes e movimentos de acordo com os seus interesses estratégicos e ideológicos. Países como o Egipto, o Irão, o Afeganistão e outros desempenharam papéis importantes nesta dinâmica.

A noção de um "Grande Médio Oriente" também tem sido associada a iniciativas políticas mais recentes, nomeadamente à visão americana pós-11 de setembro de uma transformação democrática e económica da região. Esta visão, promovida sob a administração de George W. Bush, previa uma remodelação da política e das estruturas sociais numa vasta área que englobava não só o Médio Oriente tradicional, mas também partes do Norte de África e do Sul da Ásia. A utilização da expressão "Grande Médio Oriente" reflecte, portanto, mudanças na perceção e no envolvimento político das potências mundiais na região. Também realça a forma como os conceitos geopolíticos podem evoluir e adaptar-se em função das realidades políticas e estratégicas mundiais.

A popularização e expansão do conceito de "Médio Oriente" deu origem a debate e reflexão, com figuras como Winston Churchill a manifestarem reservas quanto à utilização por vezes vaga e expansiva do termo. Churchill, enquanto figura central na redefinição das fronteiras e das políticas no Médio Oriente após a Primeira Guerra Mundial, estava particularmente consciente das complexidades e especificidades regionais que corriam o risco de ser obscurecidas por uma utilização demasiado genérica do termo "Médio Oriente". Na ONU, a utilização do termo "Ásia Ocidental" para designar parte do que muitos consideram ser o Médio Oriente é um exemplo destas tentativas de categorização mais precisa e geograficamente orientada. O seu objetivo é definir a região mais geograficamente do que política ou culturalmente, oferecendo uma alternativa à terminologia mais carregada e ambígua do "Médio Oriente".

Ao mesmo tempo, as designações tradicionais e históricas das diferentes sub-regiões e áreas geográficas não desapareceram e continuam a ser utilizadas. Termos como "Magrebe" (Noroeste de África), "Mashreq" (Próximo Oriente árabe), "Anatólia" (parte asiática da Turquia), "Mesopotâmia" (historicamente utilizada para designar o Iraque até 1921) e "Crescente Fértil" (região que engloba o Levante e partes da Mesopotâmia) têm uma riqueza histórica e cultural específica. Estes termos reflectem não só uma geografia específica, mas também histórias, culturas e identidades distintas. A persistência destes nomes sublinha a diversidade e a complexidade do Médio Oriente enquanto região. Salienta a dificuldade de captar a multiplicidade das suas características sob um único rótulo. Reflecte também um aspeto crucial do estudo geopolítico e cultural: a necessidade de reconhecer e respeitar as especificidades locais e históricas ao mesmo tempo que se abordam questões regionais e internacionais.

As três áreas estratégicas do mundo muçulmano[modifier | modifier le wikicode]

As três áreas estratégicas do mundo muçulmano.

Este mapa representa uma visão estratégica do mundo muçulmano, dividido em três regiões distintas que realçam a diversidade e as complexidades políticas, económicas e culturais do Islão. A primeira região, o coração tradicional do Médio Oriente, estende-se do Egipto aos Estados do Golfo, passando pelo Irão e pelo Iémen. Esta zona está impregnada de história, tendo sido o berço da civilização e o palco de grandes conflitos, como as guerras israelo-árabes, a revolução iraniana de 1979 e as guerras do Golfo. Estes territórios estão no centro das preocupações geopolíticas mundiais, nomeadamente devido às suas vastas reservas de hidrocarbonetos, que há décadas atraem a atenção das potências mundiais. A segunda região, o Magrebe, que inclui Marrocos, a Argélia, a Tunísia e a Líbia, apresenta um mosaico de identidades influenciadas pelas heranças berbere, árabe e europeia. Acontecimentos como a guerra de independência da Argélia e a primavera Árabe, que teve início na Tunísia em 2010, testemunham a procura permanente de autonomia e democracia. A proximidade do Magrebe com a Europa torna-o também uma região crucial para as questões de migração e segurança. A terceira região, a Ásia Central e o Cáucaso, é frequentemente esquecida nos debates sobre o Médio Oriente, mas é essencial para compreender as relações transregionais. Com o colapso da União Soviética, Estados como o Cazaquistão e o Uzbequistão ganharam importância estratégica devido aos seus recursos naturais e à sua posição nos "novos jogos geopolíticos" que envolvem a Rússia, a China e os Estados Unidos. A guerra no Afeganistão, que assistiu à intervenção de potências estrangeiras desde o período soviético até à era pós-11 de setembro, ilustra a complexidade e a instabilidade que podem emanar desta região.

Cada uma destas regiões, embora partilhando a fé muçulmana, tem a sua própria trajetória histórica e desafios contemporâneos. Do Império Otomano às revoluções árabes modernas, passando pela Guerra Fria e pelos conflitos contemporâneos, as histórias destas regiões estão entrelaçadas com os grandes movimentos da história mundial. As fronteiras e as identidades destas regiões foram moldadas por uma combinação de factores internos e intervenções estrangeiras, reflectindo dinâmicas de poder e questões que vão muito além das suas geografias imediatas. Para a ciência política e a história, este mapa recorda a importância da abordagem regional, reconhecendo simultaneamente as interconexões que definem as relações internacionais contemporâneas.

A governação nas regiões apresentadas no mapa é marcada por uma complexidade substancial, resultante da diversidade étnica, cultural e política. Xinjiang, por exemplo, é uma região autónoma no noroeste da China, habitada principalmente pelos uigures, um grupo étnico muçulmano de língua turca. A região tornou-se um ponto fulcral do debate internacional sobre os direitos humanos devido às políticas chinesas, que são vistas como tentativas de assimilação forçada e de repressão de identidades culturais e religiosas distintas. Xinjiang ilustra a forma como a governação em regiões geopoliticamente sensíveis pode envolver estratégias estatais complexas que interagem com questões de segurança nacional, desenvolvimento económico e direitos das minorias. A China justifica as suas acções em Xinjiang com a necessidade de combater o extremismo e o separatismo, enquanto os críticos internacionais as vêem como uma violação dos direitos das minorias e da liberdade religiosa.

Para além de Xinjiang, o mapa mostra também que a dinâmica da governação no "Grande Médio Oriente" é influenciada por uma série de factores, incluindo tensões sectárias, conflitos entre Estados, intervenção estrangeira e movimentos de protesto popular. A região é um complexo tabuleiro de xadrez de poderes locais, regionais e internacionais, onde os Estados-nação, as organizações não governamentais, os grupos rebeldes e as potências estrangeiras entram em conflito e cooperam numa variedade de configurações. Esta complexidade é particularmente evidente em países como a Síria e o Iraque, onde a intervenção estrangeira, os conflitos sectários e o terrorismo conduziram a crises humanitárias e a desafios de reconstrução nacional. No Norte de África, países como a Líbia mostram como a ausência de uma governação estável pode levar à fragmentação política e a guerras civis. Ao mesmo tempo, Estados como o Irão e a Turquia estão a desempenhar papéis regionais influentes, tanto como potências económicas e militares como como actores culturais e políticos. Deste modo, o mapa serve para lembrar que as estratégias de governação no Grande Médio Oriente não podem ser compreendidas sem ter em conta a riqueza e a complexidade das identidades regionais, das alianças estratégicas, dos interesses económicos e das aspirações políticas. Estes elementos moldam a política interna e as relações internacionais de forma dinâmica e frequentemente imprevisível.

Principais características geográficas do Médio Oriente[modifier | modifier le wikicode]

Médio Oriente - principais características geográficas.

Este mapa destaca as principais características geográficas do Médio Oriente e das regiões circundantes, uma área que tem sido historicamente uma encruzilhada de civilizações e continua a ser um centro de interesse geopolítico estratégico.

O Magrebe: uma encruzilhada de civilizações e de terrenos[modifier | modifier le wikicode]

A região do Magrebe, situada no noroeste de África, é uma zona única na intersecção de vários mundos. É definida por características geográficas notáveis, incluindo as cadeias montanhosas do Atlas que se estendem por vários dos seus países, nomeadamente Marrocos, Argélia e Tunísia. Estas montanhas não são apenas uma caraterística marcante da paisagem natural, mas também moldaram os estilos de vida e as rotas comerciais da região. O Sara, que faz fronteira com o Magrebe a sul, é o maior deserto quente do mundo e funciona simultaneamente como barreira e ponte entre a África subsariana e as costas mediterrânicas do Magrebe. Esta vastidão árida foi atravessada durante milénios por caravanas comerciais que transportavam mercadorias como sal, ouro e tecidos, ligando o Magrebe à África Subsariana e mais além. Historicamente, o Magrebe tem sido uma zona de intenso intercâmbio cultural e comercial. Fenícios, romanos, bizantinos e, mais tarde, árabes e europeus deixaram a sua marca na região, resultando num rico património cultural e arquitetónico. A influência árabe é particularmente notória a partir do século VII, com a introdução do Islão, que teve uma profunda influência na cultura, na língua e na identidade da região.

Ao longo dos séculos, o Magrebe viu florescer centros de conhecimento e de cultura, como a cidade de Fez, em Marrocos, e o Qarawiyyin, uma das mais antigas universidades do mundo ainda em funcionamento. A região foi também palco de grandes batalhas e conflitos, incluindo campanhas de resistência contra a colonização francesa e espanhola, que acabaram por conduzir à independência das nações magrebinas em meados do século XX. Atualmente, o Magrebe continua a desempenhar um papel estratégico devido à sua posição geográfica de porta de entrada para a Europa, aos seus recursos naturais, nomeadamente os hidrocarbonetos na Argélia e na Líbia, e aos seus desafios contemporâneos, como os movimentos migratórios e as questões de segurança regional. Compreender a geografia do Magrebe é, portanto, essencial para compreender as dinâmicas actuais que moldam a região e a sua interação com o resto do mundo.

O Saara: um deserto que liga os mundos[modifier | modifier le wikicode]

A leste do Magrebe fica o Sara, um vasto deserto que atravessa muitos países africanos. Esta vasta extensão de terra árida representa uma das barreiras naturais mais imponentes da Terra, afectando profundamente os padrões de povoamento, as rotas comerciais e os intercâmbios culturais. O Saara é mais do que um deserto; é uma fronteira ecológica, um espaço que historicamente separou o verdejante norte de África das suas regiões subsarianas mais húmidas. O "deserto da Líbia" refere-se à parte do Sara que se situa na Líbia e no Egipto. Esta região é particularmente conhecida pelas suas paisagens e formações geológicas extremas, como os maciços montanhosos de Akakus na Líbia ou os oásis dispersos que serviram de pontos de paragem vitais para as caravanas ao longo dos tempos. Estes oásis, como Siwa no Egipto, eram centros de comércio e de contacto cultural, ligando o Norte de África ao Vale do Nilo e mais além.

A dinâmica trans-saariana, influenciada pelo deserto da Líbia e pelo Saara no seu conjunto, foi crucial ao longo da história. As rotas comerciais trans-saarianas facilitaram o comércio de bens preciosos, incluindo ouro, sal e escravos, entre a África subsaariana e os mercados mediterrânicos. Estas trocas também permitiram a difusão do Islão e de outras tradições culturais, tecendo uma complexa rede de influências que continua a moldar a identidade das sociedades do Sara e do Sahel.

Além disso, o deserto tem sido e continua a ser um palco de questões e conflitos de segurança. A região tem sido palco de tensões transfronteiriças e de actividades de grupos militantes, exacerbadas pela vastidão do terreno e pelos desafios da governação. No contexto atual, o deserto da Líbia tornou-se um ponto de trânsito para os migrantes que procuram chegar à Europa, colocando a região no centro dos debates sobre políticas de migração e segurança internacional. Compreender a geografia do Sara e do deserto da Líbia é, pois, essencial para compreender as questões políticas, económicas e sociais que caracterizam estas regiões e o seu impacto na dinâmica africana e mediterrânica mais vasta.

Anatólia: uma terra de império e de diversidade topográfica[modifier | modifier le wikicode]

A Anatólia, ou Ásia Menor, que constitui a maior parte da Turquia moderna, é uma região de excecional riqueza histórica e cultural. A sua posição geográfica, entre dois continentes, fez da Anatólia uma encruzilhada de civilizações desde a Antiguidade. Impérios antigos como os hititas, os gregos, os romanos, os bizantinos e, mais tarde, os otomanos deixaram a sua marca na península, tornando-a num mosaico de culturas e legados históricos. Geologicamente, a Anatólia situa-se no ponto de encontro de várias placas tectónicas, o que explica a sua importante atividade sísmica. Esta atividade ajudou a moldar a topografia diversificada da região, com cadeias montanhosas como as montanhas Taurus e Pônticas, e planaltos interiores com lagos salgados e bacias férteis. Estas últimas foram o cenário do aparecimento da agricultura e do desenvolvimento das primeiras cidades-estado. As montanhas e os planaltos da Anatólia desempenham também um papel importante na determinação do clima da região, com as zonas costeiras a beneficiarem de um clima mediterrânico e as zonas interiores a registarem condições mais continentais. Estas variações climáticas, combinadas com a riqueza dos solos, permitiram o desenvolvimento de uma agricultura variada e sustentaram populações densas ao longo da história.

Os impérios bizantino e otomano, com as suas capitais na atual Istambul, tiraram partido da posição estratégica da Anatólia, controlando rotas comerciais cruciais entre o Oriente e o Ocidente e exercendo uma grande influência cultural e política nas regiões vizinhas. A Anatólia está repleta de vestígios destes períodos florescentes, incluindo palácios, mesquitas, igrejas e cidadelas, que continuam a atrair estudiosos e turistas de todo o mundo. Atualmente, a Anatólia continua a desempenhar um papel geopolítico central, não só para a Turquia, mas também para o Médio Oriente e a Europa. A sua localização geográfica, a sua riqueza cultural e os seus recursos naturais fazem dela uma região central nos debates sobre segurança, economia e diplomacia no Médio Oriente em geral.

O Crescente Fértil: o berço da agricultura e da civilização[modifier | modifier le wikicode]

O Crescente Fértil é uma faixa de terra historicamente rica que se estende desde o Levante até ao Iraque. Esta área é central para a história da humanidade, reconhecida como o local onde a agricultura se desenvolveu pela primeira vez devido aos seus solos excecionalmente ricos e ao acesso à água proporcionado por grandes rios como o Tigre e o Eufrates. As condições propícias à agricultura permitiram o estabelecimento de sociedades sedentárias e constituíram a base das primeiras civilizações urbanas.

A Síria e o Iraque, em particular, são terras onde surgiram e prosperaram as antigas civilizações mesopotâmicas, como os sumérios, os assírios e os babilónios, que criaram cidades complexas, sistemas de escrita e códigos jurídicos que moldaram as primeiras fases do desenvolvimento humano. Por esta razão, a Mesopotâmia é frequentemente designada como o "berço da civilização". No Levante, que inclui o Líbano, a Jordânia, Israel e a Palestina, os fenícios eram famosos pela sua navegação marítima e pelo seu comércio, estabelecendo colónias e redes comerciais em todo o Mediterrâneo. As cidades do Levante, graças à sua localização estratégica, foram centros de intercâmbio e de interação cultural entre vários impérios e culturas ao longo da história.

Atualmente, o Crescente Fértil continua a ser de importância vital para a região, apesar dos desafios colocados pela modernização, pelos conflitos e pela gestão dos recursos hídricos. A Síria e o Iraque, por exemplo, enfrentam dificuldades relacionadas com a sobre-exploração e a poluição dos seus recursos hídricos. As tensões em torno dos recursos hídricos são agravadas pelos conflitos regionais e pela pressão demográfica, o que torna ainda mais crucial a cooperação regional em matéria de gestão dos recursos hídricos. A região continua a ser um viveiro de actividades agrícolas, apoiando as economias locais e proporcionando meios de subsistência a milhões de pessoas. No entanto, a agricultura no Crescente Fértil está sujeita aos caprichos das alterações climáticas, o que exige uma adaptação e estratégias inovadoras para preservar a fertilidade dos solos e a sustentabilidade das práticas agrícolas. Os actuais desafios que o Crescente Fértil enfrenta reflectem a interação entre o seu rico passado e as complexas realidades do presente.

A Península Arábica: o centro nevrálgico da religião e dos recursos[modifier | modifier le wikicode]

A Península Arábica é uma região geográfica particularmente importante, tanto do ponto de vista cultural como económico. É o berço do Islão, com cidades sagradas como Meca e Medina, na Arábia Saudita, que atraem milhões de fiéis muçulmanos de todo o mundo para a peregrinação anual Hajj, um dos cinco pilares do Islão. A dimensão espiritual destes lugares confere à península uma importância inegável na identidade e na consciência colectiva do mundo muçulmano.

Em termos geológicos, a Península Arábica é famosa pelas suas vastas reservas de petróleo e de gás, o que faz dela uma das regiões energéticas mais ricas do planeta. A descoberta de petróleo no século XX transformou as economias dos países da península, nomeadamente a Arábia Saudita, o Kuwait, os Emirados Árabes Unidos, o Qatar e o Barém, colocando-os na cena mundial como actores-chave da economia energética. A abundância destes recursos levou a grandes investimentos em infra-estruturas e gerou enormes receitas, permitindo a estes Estados desempenhar um papel influente na política e nas finanças internacionais.

O Iémen e Omã, embora ricos em história e cultura, têm economias que não são tão dependentes dos hidrocarbonetos. O Iémen, em particular, enfrenta desafios de desenvolvimento significativos e uma situação humanitária difícil, exacerbada por um conflito prolongado. A Península Arábica é também uma região de grande importância estratégica devido à sua posição geográfica, controlando rotas marítimas fundamentais como o Estreito de Ormuz e o Estreito de Bab-el-Mandeb. Estas passagens são essenciais para o transporte global de petróleo e a sua segurança é uma das principais preocupações dos países consumidores de energia em todo o mundo.

A Península Arábica é uma área que combina um profundo significado religioso, uma abundância de recursos naturais e uma posição estratégica crucial, o que a torna um ponto fulcral na economia global e na política internacional. Os países da península navegam entre a preservação do seu património cultural e religioso e a adaptação à dinâmica económica e política contemporânea, num equilíbrio que continua a influenciar a região e não só.

A Etiópia e as suas relações históricas com o Médio Oriente[modifier | modifier le wikicode]

A Etiópia, situada no Corno de África, tem laços profundos com o Médio Oriente que transcendem as fronteiras geográficas. Estes laços estão enraizados numa história comum de comércio, religião e intercâmbio cultural. Historicamente, a Etiópia era conhecida como o Reino da Abissínia, um império que manteve relações com os reinos árabes e o Médio Oriente desde a antiguidade.

A Etiópia é o lar de uma das mais antigas tradições cristãs do mundo, a Igreja Ortodoxa Etíope, que, segundo a tradição, foi criada no século IV d.C. Esta tradição religiosa partilha certas raízes com as tradições religiosas do Médio Oriente, nomeadamente o cristianismo oriental e o judaísmo. A história da Etiópia está também intimamente ligada ao Islão, tendo sido um dos primeiros hijras (êxodo) de muçulmanos perseguidos de Meca para a Abissínia, procurando a proteção do rei cristão etíope da época, um acontecimento respeitado pela tradição islâmica.

A posição da Etiópia como encruzilhada entre África e o Médio Oriente é reforçada pela sua proximidade da Península Arábica, separada apenas pelo Mar Vermelho e pelo Golfo de Aden. Há muito que o comércio atravessa estas águas, transportando especiarias, ouro e outras mercadorias preciosas, facilitando uma rica mistura de culturas e povos. Em termos geopolíticos, a Etiópia e o Corno de África tornaram-se cada vez mais importantes para a segurança e a política do Médio Oriente, nomeadamente devido aos conflitos regionais e às questões de segurança marítima. Além disso, a Etiópia é um ator fundamental na gestão dos recursos hídricos do Nilo, o que constitui uma grande preocupação para os países a jusante, como o Egipto e o Sudão. No contexto atual, a Etiópia enfrenta os seus próprios desafios internos, incluindo tensões étnicas e políticas, mas o seu papel na região continua a ser influenciado pelas suas ligações históricas e contemporâneas com o Médio Oriente. Estas ligações sublinham a natureza interligada da região e a forma como as histórias de várias nações se entrelaçam no tempo e no espaço.

O mapa do Médio Oriente e das regiões circundantes representa uma área do mundo onde a geografia desempenhou um papel fundamental na formação da história humana. Os vastos desertos áridos, como o Saara e o deserto da Arábia, serviram de barreiras naturais, mas também de corredores de comunicação e intercâmbio cultural, influenciando as rotas das caravanas e as trocas entre civilizações. Os vales férteis do Crescente Fértil, irrigados pelos lendários sistemas fluviais do Tigre e do Eufrates, viram nascer a agricultura e as primeiras grandes cidades da história da humanidade. Estas terras ricas não só favoreceram o desenvolvimento das primeiras civilizações urbanas, como também foram palco de muitos conflitos históricos devido ao seu grande valor agrícola e estratégico. As montanhas, como as do Atlas, no Norte de África, e as do Taurus, na Anatólia, serviram de refúgios e fortalezas naturais ao longo da história, oferecendo proteção e isolando povos e culturas, permitindo o desenvolvimento de línguas e tradições únicas. Ao mesmo tempo, actuaram como obstáculos ao avanço dos exércitos, moldando as estratégias militares e as fronteiras dos impérios. Quanto aos centros urbanos históricos que pontuam esta região, de Bagdade a Damasco, de Jerusalém a Istambul, são testemunhas vivas de épocas passadas. Estas cidades, muitas vezes estabelecidas devido à sua localização geográfica estratégica ou à proximidade de água e terras férteis, foram centros de poder, comércio e cultura, influenciando grandemente a evolução da região.

Atualmente, estas mesmas características geográficas continuam a influenciar as questões contemporâneas. Os recursos hídricos tornaram-se pontos de discórdia cruciais nas relações internacionais, as terras férteis estão no centro das preocupações ambientais e as rotas comerciais históricas são objeto de debates sobre a globalização e a segurança. A geografia do Médio Oriente e das regiões adjacentes, com a sua diversidade e complexidade, continua a ser um fator determinante na dinâmica política, económica e social.

Apêndices[modifier | modifier le wikicode]

Referências[modifier | modifier le wikicode]